quinta-feira, 3 de maio de 2012

A ESPANHA ISLÂMICA - CONVERSANDO COM A HISTÓRIA


Nós brasileiros e latino americanos temos muito mais coisas em comum com os árabes do que as escolas ensinam. Esse fato em minha opinião está ligado diretamente ao europecêntrismo e principalmente o etnocentrismo vigente no continente europeu e latino americano, onde tudo que não fosse ocidental e particularmente europeu era considerado não civilizado, bárbaro, não digno de atenção, e isso aconteceu especialmente na elaboração dos manuais didáticos e historiografia ocidental até meados do século XX (e esse fato é passível de observação). É só a partir desse (segunda metade do século XX) período que o Oriente e suas realizações despertaram interesse e produções historiográficas entre nós.
Quando investigamos com atenção a História da Península Ibérica podemos perceber o quanto temos de hábitos, costumes, alimentação, comportamento que herdamos de povos tidos como “exóticos”, em nossa formação étnica e cultural, não só pelo domínio islâmico na Península Ibérica por oitocentos anos, ( a partir do século VIII), como voltando mais no tempo, pela presença de comerciantes fenícios, e a presença duradoura dos cartagineses (africanos do Norte do continente), na Espanha na época do nascente imperialismo romano. 
Como os povos islâmicos penetraram, conquistaram e permaneceram tanto tempo na “Hispania” visigoda e romana?  As pesquisas indicam que o caos reinante na região durante o governo de Vitiza rei dos visigodos (702-710), foi um fator determinante para a entrada dos muçulmanos na Península Ibérica. 
Vitiza, filho de Égica, foi nomeado governador da Gallaecia, enquanto Égica governava o reino dos Godos.  Vitiza é retratado na obra “Primera Crônica General de Espana” dorei Alfonso VII, como um homem luxurioso, que obrigou os clérigos a tomarem várias mulheres e que não tinha respeito pela Igreja. A idéia é de que a invasão moura seria em castigo de Deus pelos pecados do povo e especialmente dos reis: “Dios fiere et castiga a los sus fijos peccadores por algum tempo, mas la cristandad se levantará”.  “Mas onrados eram os iudios que las eglesias”. 
Após a morte de Vitiza a escolha de seu sucessor não foi consensual (algumas monarquias visigodas faziam a sucessão ao trono por aclamação, geralmente de descendentes dos reis falecidos). Os motivos da ascenção ao trono do herdeiro do rei Vitiza não ter sido consensual está ligado a uma lenda. De acordo com ela, na corte de Vitiza morava o duque de Fafila, sua mulher e o filho do casal, Pelaio ou Pelagio. O rei Vitiza querendo possuir a esposa do duque, assassinou-o para se apropriar dela. Pelagio fugiu para a Bretanha para escapar de Vitiza.
Com de sua morte, seu filho mais velho quer era o herdeiro presuntivo do trono sofre a oposição da maior parte da nobreza espanhola, que aclama outro nobre para tornar-se rei, este era o Duque Rodrigo também conhecido pela crônica da época como Roderico.
Partidários do clã Vitiza juram vingança, e a pretexto de apoiar outro candidato (Áquila) solicitam ajuda aos mouros de Marrocos para engrossar suas fileiras numa guerra contra os partidários de Rodrigo, enviando para tanto, mensageiros que  apontariam os pontos fracos da Espanha por onde poderiam entrar no país.
Boa parte do Norte da África era habitada por Berberes e tribos do Sudão que já estavam sob o domínio do nascente império islâmico.  Outro fator interessante é que a maioria dos povos do norte da África já conhecia um pouco da Península Ibérica, sendo que alguns transitavam livremente para dentro e fora das suas fronteiras devido a intenso contato comercial, e em boa parte esses comerciantes já eram islamizados.
O domínio muçulmano na Península Ibérica representa o fracasso das instituições políticas locais. Outro fator pode ter sido a apatia ou submissão da maioria dos hispânicos das classes mais baixas, acostumados há quase um milênio com a presença de forasteiros em sua terra.
A conquista árabe/berbere foi comandada pelo general berbere Tariq e foi relativamente fácil, ele fundaria a cidade de Algeciras, cidade costeira entre sul da Espanha e África do Norte.  A reação dos partidários de Rodrigo foi resistir atacando a expedição muçulmana, foram  derrotados na batalha de Guadalete. Os Vitizas abrem as portas da Espanha para Tariq.  Outro comandante muçulmano Musa Ibn Nusair e mais 18.000 dos melhores guerreiros árabes  também entram na Espanha e Sevilha cai. Os seguidores de Rodrigo vão para Mérida, que também é dominada em 713.
Outro fator importante na conquista é que os exércitos muçulmanos tinham um estilo rápido e flexível de lutar tornando difícil para visigóticos enfrentarem e vencerem-nos, suas armas eram muito pesadas, (diferente da dos berberes, que tinham roupas e armamentos leves, e usavam armaduras, espadas e escudos de metal pesado o que dificultava sua locomoção), facilitando a conquista dos invasores.
Em 714, os islâmicos se dedicarão a dominar a região Nordeste da Península. Acredita-se que Rodrigo teria morrido em Segoyuela em 714.  Córdoba foi tomada, e os adeptos de Rodrigo que continuaram a resistir foram derrotados em Toledo. 
A aristocracia que resistira à invasão resta morta, e Saragoça é conquistada tornando-se tributária. Os muçulmanos marcham em direção oeste e centro antes de retornar para o sul. Conquistam todo o Sul da Península em três anos tendo sido pequeno o esforço para ocupar a península. Tomaram apenas as principais fortalezas do sul, centro e nordeste, antigos centros da civilização romana.  O bairro dos Suevos, Portucale (atual Portugal) foi rendido e torna-se tributário, mas não foi ocupado. O clã Vitiza cliente dos muçulmanos, declaram sua luta uma causa legitimista proporcionando à 1ª geração da ocupação mais de três mil imóveis doados pelos conquistadores. 
Somente o saque e jihad preocupavam os muçulmanos que não avançaram o domínio islâmico na Espanha, além do centro. E o Norte, região montanhosa e de difícil acesso para quem desconhecia a região, foi abandonado, proporcionando ali o inicio de uma resistência ibérica ao domínio islâmico que duraria perto de oito séculos.  Uma das primeiras lutas contra o invasor é liderado por Pelagio (de acordo com as lendas), praticando lutas de guerrilha, sem nunca enfrentar os invasores diretamente.
A retomada cristã dos territórios perdidos para os muçulmanos começa logo após sua perda, com a expansão do reino de Astúrias entre 739 e 772. Foram batalhas não podiam ser caracterizadas como guerra de reconquista pois não tinham a  intenção de conquista definitiva, pois não viam condições para tal, mesmo a Igreja garantindo o perdão dos pecados (como acontecerá nos séculos XII e XIII), para os que se engajassem nas lutas contra os invasores.  
Nesse período ocorre a Batalha de Covadonga, que representa o início da Reconquista cristã da Espanha em 718. Dos rochedos Pelágio chama guerreiros com trombeta e a luta se dá junto ao Monte Auseba, região montanhosa e de difícil acesso para quem não conhece bem a região, favorecendo as estratégias de Pelágio que ainda usa a desorganização muçulmana para obter vantagens nas lutas, o que de fato se verificou. Dizima africanos e godos. Pouco se sabe sobre ele, as pequenas crônicas do século IX e X o relacionam com reis visigodos. Para a Historiografia moderna ele seria um servo que se impôs na crise que seguiu a queda da monarquia e era nativo das Astúrias. Mas a Reconquista definitiva ainda iria esperar varios séculos para se efetivar.
Muçulmanos foram tolerantes com cristãos e judeus (estes últimos) conhecidos como “povo do livro”. Percebe-se da parte dos invasores pouca antipatia racial, os Berberes inclusive, pouco diferiam na aparência do povo latino e alguns destes ainda não eram totalmente assimilados ao Islã. O que move os Muçulmanos é a avidez por terra e saque, seu alvo preferencial é a aristocracia visigótica que resistia.  
Para a maioria da população, citadina e camponesa a conquista muçulmana é vista mais como uma libertação, pois os muçulmanos eram mais tolerantes com os povos humildes do que nobreza visigótica.  Aos conquistados os islâmicos prometiam livre prática religiosa, maior justiça social e econômica.  Os direitos de pequenos produtores  seriam respeitados.  Aos que não se convertessem e decidissem permanecer cristãos, seria cobrado um pequeno tributo.  As extorsões dos muçulmanos não eram maiores do que as dos visigodos. Em certas regiões verifica-se tal congraçamento que cristãos compartilham igrejas com islâmicos.  Passado certo tempo muitos aceitam a conversão ao islamismo tanto no sul como no leste. A aristocracia visigótica colaboracionista abraça religião muçulmana, e passam (de acordo com as crônicas do período) a praticar a poligamia e o concubinato legal, prática aceita e regulamentada no islamismo.
Parte do setor escravizado do campesinato que aceitou o Islã foi libertado de sua servidão (de acordo com o Alcorão, nenhum muçulmano pode ser escravizado). As pessoas comuns não viam um abismo religioso entre o Cristianismo e Islã.  Viram-no como uma simplificação.
Os judeus formavam de 2 a 3% da população na Península, e também colaboraram com muçulmanos.  Os Judeus possuíam riqueza sob os visigodos, mas estavam permanentemente sujeitos à perseguições. Com o domínio muçulmano adquirem maior liberdade e segurança. Cidades importantes foram dadas a eles para as governarem temporariamente.  Por três séculos percebe-se grande influência judaica no setor financeiro e cultural, ao Sul e Sudeste. Suas habilidades lingüísticas os transformam em mediadores nos setores populacionais muçulmanos e cristãos.  Os árabes, minoria entre berberes obtêm privilégios, e desde o início e formam uma camada elitizada dentro da Espanha muçulmana, são os neo-aristocratas, que citadinos, expandem influência do Islã na Espanha. 
Os guerreiros berberes, maioria esmagadora dos conquistadores são prejudicados em seus direitos após a conquista (fato que anos mais tarde provocará revoltas difíceis de serem pacificadas), são desviados para planaltos menos produtivos, de difícil acesso. Muitos foram assentados em territórios tomados  ou abandonados pelos Visigodos.
A construção da “Hispânia” muçulmana demorou quase dois séculos para ser efetivada.  Combinam novos territórios  com um sistema administrativo bem ordenado, mas não pacifico. Os clãs árabes formam o núcleo da nova oligarquia. Por quatro décadas 715-755, existiram cerca de vinte governadores diferentes, muitos deles assassinados. O alto do império islâmico, Damasco muito preocupado com a manutenção de domínio tão distante.

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